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Hierarquias relacionais e uma Não-monogamia Política

Debate sobre a estrutura monogâmica, suas hierarquias e o rompimento dessa lógica por meio de um pensamento político da não-monogamia

As hierarquias relacionais são um dos principais constituintes da estrutura monogâmica e comumente reproduzidas nas relações ditas não-monogâmicas. O distanciamento da lógica monogâmica ainda não parece ser uma realidade para grande parte dessas relações não-convencionais que, na prática, manifestam uma série de dinâmicas e acordos para a manutenção dessa hierarquia.

A definição da palavra hierarquia será o ponto de partida para nortear o debate sobre o tema, para compreender de que forma essas hierarquias se fazem presentes nas relações não-mono e como elas podem ser prejudiciais para a isonomia das relações.

O dicionário Michaelis define hierarquia como:

  1. Distribuição organizada dos poderes com subordinação sucessiva de uns aos outros;
  2. Categoria atribuída às pessoas ou às coisas, classificadas de acordo com a ordem de importância, crescente ou decrescente.

Já o dicionário Léxico define hierarquia como:

  1. Designação atribuída à ordem ou sequência vigente usada para priorizar um indivíduo, domínios, categorias, postos, cargos e/ou dignidades de certas instituições ou organizações;
  2. Sujeição de poderes, domínios ou soberanias umas às outras;
  3. Todo o tipo de classificação ou ordenação que apresenta como alicerce ou justificativa de organização as relações entre os superiores e os dependentes.

Do grego hierarkhia, a palavra faz alusão a uma ordem dada pelo escalão máximo dentro de um contexto religioso originário, associado à posição e figura do hierarca. Hierarquias têm, portanto, a ver com um uma distribuição de poder a partir de uma classificação que é baseada na importância e é fundamental frisar isso.

Nossas relações não se dão num vácuo e estão inseridas em um contexto social e histórico que também é imprescindível de ser reconhecido. A hierarquia social das sociedades ocidentais está baseada na subordinação de poderes dentro da estrutura social, em que os indivíduos adquirem um status social. Em outras palavras, a hierarquia social classifica, numa escala vertical, as diversas categorias quanto à classe social dos indivíduos que compõem a sociedade e pode levar em consideração os gêneros, etnias e raças.

Segundo o sociólogo Márcio Mucedula Aguiar, as hierarquias sociais no Brasil somam questões de classe, raça, gênero e estão profundamente conectadas aos processos de formação das nossas diferenças sociais. Sabemos também que as questões ligadas à sexualidade estão interligadas a esse processo. Percebemos inclusive como as hierarquias sociais se conectam a própria estrutura monogâmica. Autoras feministas, como Silva Federici abordam como a dicotomia vida pública x vida privada não dá conta de sensibilizar para as especificidades das questões de gênero, muito menos da intersecção entre gênero e raça.

A vida pública seria o lugar onde o indivíduo contribui para o bem comum. Já a vida privada seria o lugar do amor, do afeto. A mulher então se torna refém desse espaço privado, sendo responsável por todo um trabalho doméstico que sequer é reconhecido como trabalho. Pensemos nessa hierarquia relacional presente no núcleo familiar, baseada num pensamento monogâmico e cristão. Nela o homem é o chefe, o provedor. A mulher estaria abaixo dele, devendo-lhe respeito, amor e devoção. Abaixo da mulher estariam os filhos, responsabilidade dela. Essa é a configuração nuclear protegida pelo pensamento cristão. E é também a configuração de família reconhecida pelo Estado como célula base da sociedade brasileira.

Para a estrutura monogâmica, as hierarquias relacionais são constituintes indispensáveis para a proteção do núcleo, do casal. Elas existem para legitimar e oficializar, bem como para classificar a importância e os poderes que essas relações têm. No topo temos o núcleo familiar, o casal e seus filhos. Orbitando essa relação, em um patamar abaixo, temos os familiares próximos e também as relações de amizade. A distribuição de poder nessa dinâmica de hierarquias pode ser exemplificada como o poder de se vetar uma amizade, uma viagem, uma compra. Tudo na ideia de proteção daquele núcleo-casal.

Não é de se admirar que as hierarquias sejam uma constante da estrutura monogâmica. A mesma é uma expressão do cisheteropatriarcado e uma violência colonial intrinsecamente conectada ao capitalismo. Como defendido pela escritora referência no pensamento feminista decolonial, Maria Lugones, “a lógica categorial dicotômica e hierárquica é central para o pensamento capitalista e colonial”. A partir deste pensamento temos uma conceituação de monogamia que se interliga diretamente as hierarquias relacionais e sociais. Não sendo a mesma apenas uma prática, mas como definido pela escritora Brigitte Vasallo: “um sistema, uma forma de pensamento. É uma superestrutura que determina aquilo que definimos como nossa vida privada, nossas práticas afetivo-sexuais, nossas relações amorosas […] é uma roleta distribuidora de privilégios a partir dos vínculos afetivos e é, também, um sistema de organização desses vínculos”.

Pensemos então nas relações ditas não-monogâmicas. Em modelos como o das relações abertas (namoro aberto e casamento aberto), existe uma figura central, o núcleo-casal, tal qual as relações monogâmicas. Nessas relações, a abertura se dá do acordo de exclusividade afetivo-sexual, mas esse, na própria estrutura monogâmica, é um pacto simbólico. Ele existe para definir as hierarquias que legitimam e oficializam o casal. Como citado pela escritora e ativista Geni Nuñez, referência no pensamento não-mono anticolonial, a traição é constituinte da monogamia. É a regra e não a exceção, como exemplificado pela pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP), em 2015, em que mais de 70% dos entrevistados responderam já terem traído. Nesse sentido, o que as relações abertas rompem com a lógica monogâmica?

Outros modelos de relações não-mono também reproduzem a lógica nuclear e hierarquizada da monogamia. Um exemplo é no poliamor que, quando aberto, mantém uma lógica nuclear com mais de uma pessoa. De casal passamos a ter trisal, quadrisal, etc. Apesar disso, esse grupo de pessoas segue sendo um núcleo que está acima de outras relações afetivas. E quando fechado, temos o exemplo da polifidelidade que reproduz uma monogamia com mais pessoas, apesar de rejeitar o rótulo de poligamia. Em contrapartida, existem também pessoas que constroem um pensamento não-hierárquico do poliamor.

Em uma lógica hierárquica, as outras relações orbitam esses núcleo-casal que são protegidos por essas hierarquias mantidas mesmo em relações ditas não-mono. Apesar de elas gerarem uma sensação de segurança para as pessoas nesse núcleo, elas também geram violências para as pessoas que não fazem parte desse núcleo e isso, muitas vezes, é deixado de fora do debate. Diversos são os exemplos de casais falando sobre seus acordos e regras hierárquicos e de como isso é positivo para eles. Quantos relatos vocês já leram das pessoas que foram vetadas? Das pessoas que tiveram seus sentimentos desconsiderados? Das pessoas a quem foram impostos acordos dos quais ela nunca concordou? A lógica hierárquica também privilegia os corpos padrão. Corpos contra-hegemônicos, historicamente marginalizados, seguem sendo preteridos. São corpos vetados, desrespeitados e desconsiderados.

As hierarquias relacionais também servem para a desvalorização das relações de amizade, que são consideradas importantes, mas não tanto quanto a sua relação “principal”. Essa lógica enfraquece nossas redes de apoio e afeto. Ela contribui para a manutenção do pensamento individualista e nuclear da estrutura monogâmica. E essa lógica também é reproduzida em relações ditas não-mono. Não é a amizade uma relação? O que a diferencia então das demais relações? É o vínculo afetivo-sexual? Mas as relações de amizade também podem ter um vínculo afetivo-sexual. Nesse sentido, o pensamento da Anarquia Relacional questiona não só as hierarquias, mas os termos que usamos e como eles podem ser símbolo de um pensamento hierárquico enraizado em nós.

Concluímos assim que a proposta de um projeto político de não-monogamia é necessariamente um projeto anti-hierarquia. Por quê? Porque a Não-monogamia Política é pautada no anticolonialismo e anticapitalismo para os quais as hierarquias são essenciais. Porque a Não-monogamia Política é um projeto emancipatório e é impossível a emancipação de corpos contra-hegemônicos mantendo a lógica hierárquica que os violenta. Porque a Não-monogamia Política é um projeto coletivo e as hierarquias relacionais empobrecem as possibilidades das nossas relações, o que afeta diretamente nossas redes de apoio e afeto. Romper com a lógica das hierarquias relacionais pode não ser um exercício fácil de se fazer, porém ele é essencial para se pôr em prática esse projeto político.

Que possamos trabalhar nossas individualidades sem transformar isso em uma tentativa de controle e cerceamento da autonomia alheia pela imposição de acordos que surge de uma lógica hierárquica. Que a autonomia dos nossos corpos seja nosso norte. Que nosso pensamento político seja um orientador de projeto de vida que é atento as estruturas de opressão e a necessidade de romper com elas, bem como da constante desconstrução e reconstrução. Que nossas relações coletivas sejam fortalecidas por uma construção saudável. Como nos diz poeticamente Geni Nuñez, que possamos construir relações artesanais, para que os afetos nos refloresçam a vida.

Referências:

“A construção das hierarquias sociais: classe, raça, gênero e etnicidade”. Márcio Mucedula Aguiar;

“Rumo a um feminismo decolonial”. Maria Lugones;

“Pensamiento monógamo, terror poliamoroso”. Brigitte Vasallo;

Geni Nuñez, post do Facebook dia 20 de out. de 2020, em https://www.facebook.com/geni.nunezlonghini/posts/3707983782553928

https://www.lexico.pt/hierarquia

https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/hierarquia/

Texto por Camila Freitas, Nana Miranda, Newton Jr e Simone Bispo.

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1 Comment

  1. Muito bom. Vou recomendar porque as leituras que fiz me fez várias provocações.
    Obrigada.

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