Luta LGBT+Textos

Monogamia, monossexismo e bissexualidade

Uma análise sobre a invisibilidade e da estrutura monogâmica contra bissexuais

Pessoas bissexuais além de sofrerem apagamento de sua sexualidade dentro da comunidade LGbt por conta do monossexismo[1], também sofrem com uma super-sexualização de seus corpos e relações. Estereótipos associam a bissexualidade a promíscuidade, a ISTs, traição e infidelidade. Existe uma associação da bissexualidade com a não-monogamia, mas num sentido pejorativo. Isso porque a bissexualidade e outras monodissidências[2] ameaçam a estrutura monogâmica e a concepção binária do mundo cis-heteronormativo.

Apesar da aproximação histórica das pessoas bissexuais com a dos movimentos gays e lésbicos, a insatisfação com esses movimentos levou a articulações políticas para exigir reconhecimento do movimento bissexual, sua agenda e suas pautas. No Brasil exemplos dessa articulação são o Coletivo Brasileiro de Bissexuais (CBB), criado em 2005, o coletivo Bi-sides, criado em 2010, o MovBi de 2013 que inclusive se tornou a primeira ONG de bissexuais do Brasil. Também em 2013, Shiri Eisner lançou “Bi: Notes for a Bissexual Revolution”, que propõe um debate sobre aspectos, significados e política da bissexualidade, bifobia, monossexismo e feminismo.

Apesar dos debates sobre o uso ou não do sufixo fobia e sua herança psicopatológica, o movimento bissexual tem reivindicado o uso do termo bifobia para falar das violências e deslegitimação das experiências e vivências de pessoas bissexuais. Um exemplo dessas violências é a ideia da bissexualidade ser uma sexualidade de transição. Ou seja, em algum momento a pessoa vai se assumir homo ou perceber que só estava confusa e na verdade é hetero. Outro exemplo seria a ideia de “passabilidade hetero” de pessoas bissexuais em relações com pessoas do gênero oposto. Como se por estarem nessas relações a pessoa deixasse de ser bissexual, seus desejos e atração sumissem e ela deixasse de sofrer bifobia.

Elizabeth Sara Lewis fala do “ciclo vicioso e paradoxal de apagamento e super-sexualização da bissexualidade”. Para a pesquisadora, o ciclo começa com o apagamento da bissexualidade, fazendo com que pessoas bissexuais tenham que provar sua sexualidade insistindo que sentem desejo por mais de um gênero desde a infância. A resposta à ideia de que a bissexualidade se manifesta desde cedo na vida dessas pessoas é a acusação de uma incapacidade de controle dos impulsos sexuais, uma super-sexualização que coloca essas pessoas como promíscuas e inerentemente infiéis. Para se colocar contra essa super-sexualização, bissexuais insistem na capacidade de estarem em relações monogâmicas estáveis e fiéis. Isso leva então a um outro tipo de apagamento, que tenta classificar essas pessoas como hetero ou homo por conta de suas relações e o ciclo recomeça.

É interessante notar essa tentativa de associar a legitimidade da sexualidade a sua capacidade de se adaptar a norma monogâmica. Apesar das transformações sociais e lutas por direitos, a régua para a validação segue sendo o modelo cis-heteronormativo e monossexual. Podemos perceber então, em parte do movimento bissexual, uma preocupação em se afastar da imagem de confusos e promíscuos, uma preocupação “higienizadora” que impacta diretamente em pessoas bissexuais que são não-mono e buscam afirmar essa identidade política. Outra face nociva da estrutura monogâmica é a exigência da performance de estereótipos de gênero, para validação da sua sexualidade. A expectativa de que homens bissexuais vão ser ativos viris e mulheres bissexuais vão ser femininas e fogosas, e as pessoas que fogem a isso tem sua sexualidade invisibilizada e negada. A estrutura monogâmica, por ser ameaçada, procura colocar em caixas cis-heteronormativas todas as vivências, desejos e práticas bissexuais.

Uma não-monogamia política visa também a desestabilização dos pilares do monossexismo. Como citado no nosso texto sobre Monogamia e Luta LGBTIA+, precisamos da radicalidade no pensamento para romper com essas estruturas e não de validação através de assimilação da mesma. Pela autonomia de amar e nos relacionarmos com quem quisermos, quando quisermos e com quantas pessoas quisermos. E inclusive pela autonomia de não amar ou não querer se relacionar sexualmente com ninguém. Pelo direito de vivenciar os processos diários de desconstrução e reconstrução, que podem sim, ser confusos às vezes. Por que deveríamos ter todas as respostas? Não existem soluções fáceis para questões complexas. Entendemos a estrutura monogâmica como bifóbica tanto quanto racista e machista, e nossa emancipação passa pela superação da mesma.

1. Monossexismo: a crença de que as sexualidades monossexuais (heterossexualidade, homossexualidade, lesbianidade) são superiores e mais legítimas.

2. Monodissidências: Conjunto de sexualidades que não são monossexuais. Ex: bissexualidade, panssexualidade, polissexualidade, etc.

Referências:

Bissexualidade, bifobia e monossexismo: problematizando enquadramentos”. Melissa Bittencourt Jaeger, Geni Nuñez Longhini, João Manuel de Oliveira, Maria Juracy Filgueiras Toneli.

O ciclo paradoxal de apagamento e super-sexualização da bissexualidade nos movimentos LGBT: resistências em narrativas de ativistas bissexuais.” Elizabeth Sara Lewis.

Eu quero meu direito como bissexual: a marginalização discursiva da diversidade sexual dentro do movimento LGBT e propostas para fomentar a sua aceitação.” Elizabeth Sara Lewis.

Bisexuality and the Seduction by the Uncertain. Em: https://web.archive.org/web/20070117235500/http://www3.sympatico.ca/moogie.robinson/queertheory.htm

Identities and Ideas: Strategies for Bisexuals. Liz Highleyman. Em: http://www.black-rose.com/articles-liz/bipol.html

Texto por Nana Miranda, Newton Jr e Simone Bispo.

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