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A não-monogamia como identidade política

Notas sobre “ser” ou “estar em” e a não-monogamia

Podemos observar esse tema a partir de vários lugares diferentes. Isso se dá pelo sentido literal que podemos dar à “não-monogamia” e o sentido político do qual falamos aqui. E é por uma construção de sentido político nessa luta anti-norma, que falar sobre “ser” ou “estar em” para relações não-mono se mostra importante para nós nesse espaço.

Ao falar de não-monogamia, não podemos cair nas falácias de determinismo biológico, como alguns que se utilizam desse discurso o para tentar marcar como “natural” a monogamia. Você já deve ter lido a famigerada frase “ah, mas os pássaros…”, evocando a natureza “monogâmica” de algumas espécies como comprovação de que a monogamia seria natural e portanto o ideal para nós humanos. Nesse texto não vamos nos alongar em questões biológicas, mas é importante ressaltar que, para nós, assim como a monogamia não é algo natural ao ser humano, tampouco é a não-monogamia. A não-monogamia enquanto escolha política é uma desconstrução de paradigmas impostos por uma sociedade racista, machista e patriarcal, uma construção diária e alinhamento da teoria com as vivências práticas.

Por não ser natural, logo as pessoas não “são”, geralmente, monogâmicas. A norma social está presente desde muito tempo, respaldada pelo Estado e Igreja¹. Bem como pelo bombardeamento midiático de narrativas que trazem o mito do amor romântico em livros, séries, novelas, filmes, etc. A grande maioria das pessoas não conhecem uma alternativa à “escada rolante relacional”. A ideia de percorrer o script de conhecer → ficar → namorar → casar com o intuito de encontrar a “pessoa ideal”, sendo inclusive colocado como reprimível o simples fato de pensar em outro alguém. Muitas pessoas hoje em relações não-mono já tiveram relações monogâmicas, esses exemplos reais de que se é possível perceber a norma e sair dela é um dos motivos de ser importante não criar uma dicotomia “nós vs eles” ao falarmos de pessoas em relações monogâmicas.

Ao se escolher romper com a norma, nesse sentido, temos uma relação não-mono ao estarmos numa relação não-mono. Porém, ao pensarmos politicamente nessa decisão, passamos a também poder nos perceber como pessoas não-mono. Nesse caso, falando de uma identidade política, que é definida pelo psicólogo e pesquisador Antonio da Costa Ciampa como aquela envolvida em “lutas pela emancipação de diferentes grupos sociais, que em sua ação coletiva revelam velhas ou novas opressões”.

É por sermos não-mono, na ideia de uma identidade política, que a não-monogamia está para além da quantidade de relações que vivenciamos. Ainda que um indivíduo não esteja se relacionando afetivo-sexualmente com alguém, o pensamento político não-mono está presente no que pauta as relações para essa pessoa. E é importante reforçar essa questão sobre quantidade, atrelado a um pensamento não-hierárquico, bem como inclusivo para pessoas dentro dos espectros da arromanticidade e asexualidade que vivênciam a não-monogamia. Nesse sentido, sermos pessoas não-mono se junta a outras lutas políticas que atravessam nossa vida, como o anti-racismo, anti-machismo, anti-LGBTIfobia.

É por conta desse pensamento político também que ao falarmos de não-monogamia, deixamos de lado algumas práticas que, apesar de ao pé da letra serem consideradas “não-monogamia”, na realidade não rompem com a lógica monogâmica, e muitas vezes a reforça, como é o caso do swing. Muitas pessoas acreditam que o swing é uma prática não-monogâmica e o texto “Curtir swing não faz de você uma pessoa não-monogâmica” é um dos materiais que pode ajudar a entender o porquê de não acreditarmos nisso.

A identidade política conjuga igualdades e diferenças, e é construída na busca por grupos, causas e ideais, como a não-monogamia enquanto posicionamento político. Por isso, como colocado no texto sobre Saúde Mental, reforçamos a importância de espaços de troca de teorias e vivências práticas, como grupos de Facebook e projetos como a própria NM em Foco. Esses espaços acabam por nos ajudar na construção das ideias e nos dão uma sustentação, uma vez que o processo de desconstrução é diário e incômodo, afinal sair da zona de conforto nunca é fácil. Bem como nos dão espaço para exercitar uma autonomia, por ser uma caminhada única para cada pessoa e suas particularidades. Se entender não-mono, contempla a busca por emancipação na construção da identidade política, nos dando a oportunidade de romper com uma homogeneidade social que é a monogamia. Temos a não-mono como um dos orientadores dos nossos projetos de vida.

¹. Por falar de Brasil, Igreja aqui refere-se ao cristianismo e suas denominações, por conta da herança da colonização portuguesa.

REFERÊNCIAS:

“Identidade Política e Projeto de Vida: Uma Contribuição à Teoria de Ciampa.” — Sergio Silva Dantas

Texto por Nana Miranda, Newton Jr e Simone Bispo.

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