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Por que Não-monogamia Política?

Propostas de uma outra visão sobre relações não-monogâmicas a partir de uma análise interseccional

A não-monogamia não é uma novidade do século XXI. Relacionamentos que se diferem da lógica monogâmica existem há muito tempo e podem ser observados em diversos povos pelo globo. A não-monogamia como um termo guarda-chuva para se referir a formas de relações afetivas e sexuais que se contrapõem à mono-normatividade¹ (exemplo: poliamor, relações livres, casamento aberto, relacionamento aberto e até mesmo a prática do swing) também não é algo tão recente. A proposta desse texto é fazer uma análise histórica dos diversos conceitos abarcados neste termo guarda-chuva, bem como propor uma outra visão do que seria a não-monogamia quando somada a palavra “política”.

O Mito do Amor Romântico

Ao analisarmos os conceitos de amor ao longo da história, percebemos o quanto ele não é um termo posto, mas sim um reflexo da sociedade e época em que se apresenta. Ele transitou entre idealização, vigilância, ridicularização e também retomou a idealização. O casamento como já comentado em outros textos nossos é um contrato, servindo a interesses de negociação e poder, e durante muito tempo esteve desprendido do conceito de amor. No Renascimento², a popularização do rito do casamento religioso trouxe uma aproximação dos conceitos. Já no Iluminismo³ o amor é vinculado ao ridículo, por afastar o homem da razão que o deve guiar. E então no Romantismo⁴, temos o advento do amor romântico.

O amor romântico surge com um contraponto a racionalização excessiva do Iluminismo. Nas diversas artes o amor romântico passa a ser representado como sentimento nobre e desejável, estimulando uma ideia universal. É um amor do lar, um amor puro e casto, contido. Passa a ser associado também ao casamento para além dos interesses econômicos do contrato. O mito do amor romântico é moldado na família cis-heteronormativa branca, com papéis de gênero bem definidos. Com o homem podendo escolher sua noiva, a mulher passa a ter que se resguardar, ser prendada, e com isso a virgindade passa a ter um valor político e econômico. A família nuclear burguesa é imposta a mulher e garante ao homem a transmissão das posses e herança acumuladas por ele.

As revoluções sexuais do século XX abriram espaço para os questionamentos das normas cis-heteronormativas do amor. Nesse contexto o amor romântico, apesar de ainda almejado, passou a ser percebido não mais como eterno e que a prática é diferente das idealizações do mito. Junto das lutas por direitos civis LGBT e das mulheres, também surge a possibilidade de relações múltiplas e a reivindicação de identidades não-monogâmicas lutando pela visibilidade do tema. Essa discussão culminou na popularização do termo casamento aberto e do poliamor nos EUA e depois em outros países do globo.

A não-monogamia como termo guarda-chuva

A prática do swing é constantemente tema de debate por parte de pessoas não-mono sobre ser ou não inserida no guarda-chuva de termos da não-monogamia. Surgida por volta dos anos XX nos EUA, essa prática está atrelada às mudanças de comportamento sexual dos casais no contexto pós-guerra. No começo elas estavam restritas a espaços de festas privadas, mas passaram a ter um caráter de estilo de vida. No Brasil o swing chega por volta dos anos 70, e por conta da ditadura, fica restrito também a festas privadas. Hoje em dia é uma prática bem mais difundida, com mais divulgação e muito mais adeptos. É uma prática “liberal”, que consiste na troca de casais para relações sexuais, e que pode ou não incluir uma terceira pessoa. É praticada tanto por pessoas que se consideram não-mono quanto por casais que se definem como monogâmicos.

As expressões casamento aberto e relação aberta (em inglês open marriage e open relationship) são creditados a George e Nena O’Neill, por conta do livro Open Marriage: A New Life Style for Couples. Apesar de a expressão relação aberta existir anteriormente em inglês, ela se referia a ideia de uma relação com muito diálogo e sem segredos. Amigas poderiam ter uma relação aberta por exemplo, nessa ideia. Com o lançamento do livro, a expressão passou então a estar associada aos conceitos do guarda-chuva da não-monogamia. Por conta da popularização do termo, ela também passou a ser usada como sinônimo de poliamor. Porém para outros, alguns marcadores definiriam uma diferença, como por exemplo a relação aberta permitindo relações sexuais apenas, diferente do poliamor onde teríamos as relações afetivo-sexuais.

Através de pesquisas pudemos encontrar citações ao longo da história do termo poliamor (em inglês polyamory). A primeira menção que encontramos é de 1953, na Illustrated History of English Literature, por Alfred Charles Ward, que se refere ao rei Henrique VIII como “determinado poliamorista” com um conotação negativa. Em 1969 temos então a menção por Joseph McEnlroy, em sua obra de ficção Hind’s Kidnap — A Pastoral on Family Airs, que se refere a uma “tribo poliamorosa” que contribuia para o declínio da instituição família. Em 1971 é fundada a Comunidade Kerista (Kerista Commune), que existiu até 1991, em San Francisco, Califórnia, EUA e é creditado a este grupo a criação de algumas palavras como “polifidelidade”, “compersão” e “poli-intimidade”. Então em 1990 temos a publicação do artigo Bouquet of Lovers — Strategies for Responsible Open Relationships de Morning Glory Zell-Ravenheart, que cita diversas vezes a expressão poliamoroso. Já o dicionário Oxford em 2006 adicionou a palavra poliamor aos seus verbetes, creditando o termo a Jeniffer L. Wesp, quando a mesma criou em maio de 1992 o grupo alt.polyamory no Usenet⁵.

A expressão relações livres foi usada a primeira vez no manifesto “Sexo, prazer e afetividade”, escrito em 2003 pelo grupo Família e Feminismo de Porto Alegre, criado em 2002. Em 2006 com a junção do grupo Frente Única de Libertação Sexual e dos encontros é que a rede de relações livres (RLi) foi fundada, com expressão forte no sul do país. Pelo caráter regional, as RLi são menos divulgadas que o poliamor, mas não são sinônimos. RLi é uma forma consensual, política e militante de não-monogamia que critica ativamente o amor romântico. Não só defende a possibilidade de vários amores, como no poliamor, mas tem como base a autonomia dos envolvidos, na livre vivência de seus desejos afetivos e sexuais tanto em relações casuais quanto relações duradouras. Outra diferença é em relação ao casamento, que enquanto no poliamor é possível a polifidelidade e a união conjugal entre mais pessoas, na RLi qualquer forma de relação não-monogâmica fechada é rechaçada.

É difícil definir exatamente como a filosofia da Anarquia Relacional surgiu, mas eventualmente a comunidade poliamorosa pelo mundo começou a discutir sobre o assunto. Andi Nordgreen, uma pessoa queer⁶ da Suécia discutiu bastante sobre em um blog que elu gerenciou nos anos 2000. Também é tema do TCC de Jacob Strandell e Ida Midnattssol, ambos em sueco. A Anarquia Relacional vai além da desconstrução do amor romântico presente no poliamor numa oposição a norma monogâmica. A mesma rejeita a ideia de casamento e também procura destruir completamente a hierarquia nas relações romântico-sexuais, se desvencilhando de categorias de relacionamento baseadas na presença ou falta do sexo e/ou amizade nessas relações. Busca criar uma equidade entre todas as relações, sejam elas recentes ou mais antigas.

Por que não-monogamia política?

Como pudemos observar, dentro dos termos abrangidos pelo guarda-chuva da não-monogamia, existe em comum uma luta política pelo rompimento da mono-normatividade. Alguns desses termos vão além numa filosofia que se opõe radicalmente as estruturas monogâmicas como a RLi e a Anarquia Relacional. Sendo assim, porque nós optamos por usar a expressão não-monogamia política?

Embora termos vindos de fora ou criados aqui no Brasil também se pautem por lutas políticas, para nós, da mesma forma que se mostrou necessário pautar não-monogamia com foco em raça, gênero, sexualidade e classe, se mostra necessário se apropriar de um termo que possa dar potência para o que falamos. Apenas uma não-monogamia política de fato pode ser antirracista, por ser necessariamente pautada por um anticolonialismo. Uma não-monogamia política não visa apenas a desconstrução do amor romântico, mas sim ser uma anti-monogamia. Com isso, conceitos como polifidelidade, poliamor fechado, relações abertas apenas para relações sexuais, poliamor hierárquico e afins não tem como fazer parte de uma não-monogamia política. É necessário romper de fato com a estrutura monogâmica, a percebendo como estrutura de opressão que se retroalimenta com o racismo, o capitalismo, o patriarcado e a cis-heteronorma.

Para uma não-monogamia política não faz sentido expressões como “não-monogamia consensual” e nem “não-monogamia ética”. Por ter uma base política, não tem como haver uma relação não-mono que não seja consensual. E também por essa base não possível haver uma relação não-mono que não seja ética. A ética relacional em uma não-mono política é uma construção coletiva, atenta às estruturas de opressão e poder, e busca ao máximo ser saudável dentro do que é possível enquanto vivermos no sistema capitalista. Por sermos pessoas pretas, LGBTIA+, escrevendo para pessoas não-brancas, para pessoas não hegemônicas, em oposição a norma monogâmica, é que precisamos de uma não-monogamia política. Justamente por saber que são os nossos que sofrem diretamente e de forma mais pesada a nocividade desta norma, como já falado em diversos textos nossos. Para nós, a não-monogamia é política, ou não é. É anti-monogâmica e não uma prática de atualização da monogamia.

¹. Mono-normatividade: conjunto de normas culturais e características sociais que defendem e perpetuam o estilo de vida monogâmico.

². Renascimento: foi um movimento cultural, econômico e político que surgiu na Itália do século XIV, se consolidou no século XV e se estendeu até o século XVII por toda a Europa.

³. Iluminismo: foi um movimento intelectual que surgiu durante o século XVIII na Europa, que defendia o uso da razão (luz) contra o antigo regime (trevas) e pregava maior liberdade econômica e política.

⁴. Romantismo: foi um movimento artístico, intelectual e filosófico que surgiu na Europa no final do século XVIII e, na maioria dos locais, atingiu seu ápice na metade do século XIX.

⁵. Usenet (do inglês, Unix User Network): é um meio de comunicação onde usuários postam mensagens de texto (chamadas de “artigos”) em fóruns que são agrupados por assunto (chamados de grupos de notícias). Ao contrário das mensagens de correio eletrónico, que são transmitidas quase que diretamente do remetente para o destinatário, os artigos publicados nos grupos de notícias são retransmitidos através de uma extensa rede de servidores interligados.

⁶. Queer: palavra proveniente do inglês usada para designar pessoas que, seja por sexo biológico, orientação sexual, orientação romântica, identidade de gênero ou expressão de gênero, não correspondem a um padrão cis-heteronormativo.

REFERÊNCIAS:

“Amar amores: o poliamor na contemporaneidade.” — Tatiana Spalding Perez, Yáskara Arrial Palma

“Amar é verbo, não pronome possessivo. Etnografia das relações não-monogâmicas no sul do Brasil.” — Dardo Lorenzo Bornia Junior

https://polyinthemedia.blogspot.com/2007/01/polyamory-enters-oxford-english.html

https://vidapoliamor.wordpress.com/historia/

https://www.dictionary.com/e/slang/open-relationship/

https://thethinkingasexual.wordpress.com/2013/05/07/relationship-anarchy-basics/

Texto por Nana Miranda, Newton Jr e Simone Bispo.

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