Disputa de ConceitosTextos

Monogamia, quantidade e disputa de conceitos

Reflexões sobre o senso comum, definições e conceitos

A monogamia é descrita em dicionários como sistema/costume/regime social no qual a pessoa pode ter apenas um cônjuge durante a vigência do casamento. No imaginário popular, a monogamia é essa prática de ter apenas uma relação, mesmo antes do casamento. Em contrapartida, nesse mesmo imaginário, não-monogamia é associado diretamente a relações múltiplas. Apesar disso, nem monogamia e nem não-monogamia podem ser resumidas a quantidade. Vamos discutir então sobre esse imaginário, sobre essa fixação na quantidade e também sobre as disputas de conceitos que consideramos necessárias para a construção do pensamento político da não-monogamia.

O sociólogo e professor Sérgio Lessa situa a origem da família monogâmica na transição para a sociedade de classes quando, para potencializar a exploração e diminuir resistências, foi necessário romper os laços de coletividade, característica de nossos antepassados. Houve assim imposição da busca individual por sobrevivência, sendo o caráter nuclear e o individualismo características da propriedade privada e da estrutura monogâmica.

A palavra família vem do grego famulus (escravo doméstico) e significava o conjunto de propriedades de alguém, incluindo escravos e parentes. A família Romana é importante organização para se entender as descrições de família em diversos códigos modernos. Ela era composta por mulher, filhos, netos, bisnetos e pelos bens, que incluía os escravos, tudo sob o jugo do pater familias, o patriarca.

O imaginário atual sobre monogamia envolve apenas duas pessoas (o casal), porém, historicamente, ela tem a ver com um grupo familiar e com dinâmicas relacionais. Essas dinâmicas deveriam ser o foco da conceituação da estrutura monogâmica. Apesar disso, há uma obsessão na relação com números, por quantidade e, se ela é definida a partir disso, é por “um erro da antropologia eurocêntrica [1] e androcêntrica [2]”, como aponta a escritora e ativista Brigitte Vasallo no texto “Abrir Amores, Fechar Fronteiras?”.

Vasallo define a monogamia como um “sistema de pensamento que organiza as relações em grupos identitários, hierárquicos e confrontados, através de estruturas binárias com polos reciprocamente excludentes”. Para a autora, a exclusividade sexual é uma condição necessária para a estrutura monogâmica. Ela não é uma causa, mas uma consequência dessa estrutura, um sintoma dela. No entanto, a ideia da exclusividade não vem a delimitar uma prática diretamente. Ela serve para marcar hierarquias, a legalidade e a oficialidade das relações. Serve para marcar quem é a esposa/marido e quem é a/o amante, o que é normal e o que não é, o que é socialmente aceito e o que é socialmente recriminável. A monogamia não tem a ver com quantidade. A existência da infidelidade conjugal exemplifica isso. Apesar de vista como um atentado à monogamia, a traição, as/os amantes, a infidelidade e o adultério fazem parte da estrutura monogâmica.

Um levantamento feito pela pesquisa Mosaico 2.0, conduzida pela psiquiatra Carmita Abdo (USP), mostra que a média nacional de traição no Brasil, entre homens e mulheres, é de 40,5%. A fidelidade feminina historicamente serviu para garantia de que os bens e herança do patriarca seriam transferidos para filhos “legítimos”. A ideia de reprodução cisheterocentrada é uma das características da estrutura monogâmica. A infidelidade masculina no ocidente, apesar de recriminada, foi por diversas vezes tratada como “natural”. As transformações sociais criaram possibilidades para a infidelidade feminina. O teórico e escritor alemão Friedrich Engels constata que, “com a monogamia, apareceram duas figuras sociais constantes e características, até então desconhecidas: o inevitável amante da mulher casada e o marido corneado. Os homens haviam conseguido vencer as mulheres, mas as vencidas se encarregaram, generosamente, de coroar os vencedores”.

A monogamia também é uma imposição colonial, que foi feita durante o processo de catequização. Ao analisarmos essa imposição, podemos notar como a mesma não tem a ver com quantidade. No artigo “Casar sim, mas não pra sempre: o matrimônio cristão e a dinâmica cultural indígena nas reduções do Paraguai”, o pesquisador Guilherme Fellipe destaca que as relações múltiplas (arbitrariamente classificadas como poligamia) não eram a única preocupação dos jesuítas. Eles se preocupavam com relações que não tinham uma característica contratual, que eles descreviam como “amancebamento” (arbitrariamente classificadas como monogamia), constituídas em rituais autóctones [3]. Essas relações também não tinham um caráter indissolúvel. Aos olhos cristãos dos jesuítas, elas não eram confiáveis e iam contra o dogma do “até que a morte os separe” do casamento cristão, podendo ser desfeitas com a mesma facilidade com que eram feitas.

Alguns jesuítas preferiam chamar essas relações não-contratuais de concubinato em vez de casamento, por terem, para eles, um caráter não-confiável. Para eles era preciso tanto impor a ideia de que os indígenas deveriam estabelecer relações monogâmicas, como que essas relações deveriam ser duradouras e fiéis a seus cônjuges. Tanto um indígena “monogâmico”, “amancebado”, quanto um “poligâmico” tinham relações condenáveis e foram alvo dos trabalhos de evangelização dos catequizadores para, no primeiro caso, as relações assumirem a característica indissolúvel e, no segundo, eliminar as relações múltiplas para que, assim, as relações monogâmicas cristãs fossem impostas.

A partir dessa análise da estrutura monogâmica, é possível afirmar que, apesar dela ser focada no casal, não é isso que a define por si só. São constituintes base da monogamia as características nuclear, individualista, hierárquica, ligadas a reprodução cisheterocentrada, a violência colonial e ao processo de catequização. O imaginário popular se volta para a ideia de quantidade, do casal, muito pelo mito do amor romântico, hoje também constituinte indispensável dessa estrutura. O conto de fadas acaba no casamento, marco máximo do amor. Às vezes até se propõem a mostrar a felicidade dos filhos, mas tem esse foco no casal, no desenvolvimento dessa escalada relacional que culmina com a constituição de uma nova família. A vida, no entanto, não é um conto de fadas.

Da mesma forma que o imaginário popular associa monogamia a duas pessoas, também associa não-monogamia a mais de duas pessoas. Esse pensamento estaria certo se fosse referente à coletividade, porém, a associação é feita diretamente a mais de duas relações afetivo-sexuais, e é nesse sentido que esse pensamento é falho. Essa associação à quantidade em relação a não-monogamia também acontece por entenderem a poligamia ocidental como parte da não-monogamia. E também pela visibilidade que o poliamor e as relações abertas têm. Em contrapartida, nossa proposta nesse espaço é a Não-monogamia Política, e ela não é um modelo relacional e sim um orientador de projeto de vida. Projeto esse emancipatório e coletivo.

O sentido da vida é coletivo. Por isso a Não-monogamia Política tem a ver com coletividade, com a possibilidade de construção de relações múltiplas, sem hierarquias. Relações autônomas, que tenham equidade. Essas relações, no entanto, não se resumem às afetivo-sexuais. Essas relações múltiplas englobam todas as que passam a fazer parte da criação de uma rede de apoio e afeto. O lugar do sexo nessas relações é particular a cada uma, mas não um marcador de hierarquias. A escolha por uma Não-monogamia Política é a decisão por um posicionamento contra-hegemônico, anti-monogamia. Nesse sentido, essa escolha é por romper e destruir todos os constituintes base dessa estrutura.

A decisão por manter diversas relações afetivo-sexuais, uma ou nenhuma é particular, e tem a ver com questões pessoais. Ainda assim, essa decisão pode ser orientada por um pensamento político da não-monogamia. Existem pessoas dentro do espectro da assexualidade e arromaticidade que são não-mono, e isso independe da quantidade de relações afetivo-sexuais que elas mantêm. Ainda que decidamos manter apenas uma relação afetivo-sexual, a partir da não-monogamia política, isso não implica em cercear a autonomia sexual e afetiva de nossa parceria, ou seja, ela pode manter quantas relações desejar, mesmo que o nosso desejo seja o de manter uma relação afetivo-sexual apenas com ela. Além disso, é interessante refletir sobre a necessidade de retirar das relações afetivo-sexuais esse caráter de oficialidade, como se as demais relações não fossem válidas ou se reduzissem a relações inferiores. Ainda que escolhamos viver apenas uma relação afetivo-sexual, isso não significa ou impede que nossas demais relações façam parte da nossa rede de afeto e apoio.

Em seu livro “Tudo sobre o amor: novas pespectivas”, a escritora e teórica feminista bell hooks dedica um capítulo para falar de comunidades. Ela constata que as comunidades sustentam a vida, e não a família nuclear monogâmica e nem o “casal”. No interior, em periferias, nas comunidades, na vida no campo, as pessoas já têm noção de como a coletividade é potencializadora das nossas individualidades. Esse é um ensinamento ancestral. Apesar disso, a estrutura monogâmica empobrece essas possibilidades por conta de limites hierárquicos. hooks fala de como muitos de nós somos ensinados a não ver amizades como mais importante que relações familiares. Essas hierarquias que agrupam e distribuem poder são características da estrutura monogâmica, que um pensamento político da não-monogamia busca romper e abolir.

As disputas pelo conceito de monogamia são muito importantes. A partir do momento que conseguimos analisar a monogamia enquanto estrutura, e então superar a obsessão por quantidade, podemos adentrar no debate sobre as dinâmicas e os constituintes básicos dessa estrutura. Ao fazer isso, conseguimos evidenciar como a mesma se retroalimenta junto do cisheteropatriarcado, do racismo, do machismo, do capitalismo e da colonialidade. A superação da monogamia é essencial para a emancipação, principalmente de corpos historicamente marginalizados. Nossa radicalidade no pensamento político da não-monogamia é por entender a monogamia como uma violência que segue reverberando em nossos corpos. A potência de nossas comunidades, da vida coletiva, não pode permanecer sendo empobrecida por uma estrutura nociva como essa. Nosso convite é para esse projeto político, coletivo e emancipatório, tendo a não-monogamia como um dos orientadores, que se intersecciona com diversas lutas anti-opressão.

  1. Eurocêntrico: centralizado na Europa e/ou nos europeus; que tende a interpretar o mundo segundo os valores do ocidente europeu.
  2. Androcêntrico: sistema, organização, doutrina ou atitude que privilegia o que é masculino (cishetero).
  3. Autóctone: que ou quem é natural do país ou da região que habita e descende das raças/etnias que ali sempre viveram.

Referências:

“Abrir amores, fechar fronteiras?” — Brigitte Vasallo. Tradução pela edição Chão da Feira, caderno n° 112. Disponível em: Caderno n.112 — Abrir amores, fechar fronteiras? — Chão da Feira (chaodafeira.com);

“Abaixo a família monogâmica” — Sérgio Lessa;

“As inovações constitucionais no Direito de Família” — Simone Clós Cesar Ribeiro;

“Casar sim, mas não pra sempre: o matrimônio cristão e a dinâmica cultural indígena nas reduções do Paraguai” — Guilherme G. Fellipe;

“Pensamiento monógamo, terror poliamoroso” — Brigitte Vasallo;

“Tudo sobre o amor: novas perspectivas” — bell hooks. Tradução do projeto Afetos Insurgentes. Disponível em: Comunidade: Comunhão Amorosa, por bell hooks | by Afetos Insurgentes | Afetos Insurgentes | Medium;

Matéria: “50% dos homens brasileiros já traíram, diz estudo; mulheres traem menos”. Disponível em: Bem Estar — 50% dos homens brasileiros já traíram, diz estudo; mulheres traem menos (globo.com).

Texto por Camila Freitas, Nana Miranda, Newton Jr e Simone Bispo.

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