Disputa de ConceitosTextos

Poligamia, não-monogamia e disputa de conceitos

Debatendo conceitos e desconstruindo imaginários

O imaginário popular tende a associar não-monogamia com a necessidade de relações múltiplas. Por conta disso, poligamia costuma ser usada como sinônimo ou ser colocada no guarda-chuva da não-monogamia. Em contrapartida, diversas pessoas que vivem relações não-monogâmicas tendem a procurar se afastar da ideia de poligamia, marcando as diferenças entre as suas relações e o imaginário das pessoas. Mas, de qual poligamia essas pessoas falam? Por que, na não-monogamia, algumas pessoas buscam se afastar desse conceito? Como se dá essa conceituação? E como a poligamia é encarada por uma Não-monogamia Política?

Tal qual a monogamia, poligamia vem do grego poli (muitos) e gamia (casamento). Se a monogamia é, segundo dicionários, o regime em que se pode ter apenas um cônjuge durante a vigência do casamento, a poligamia é o regime em que se pode ter mais de um cônjuge durante a vigência do(s) casamento(s). A poligamia, em muitos casos, tem a ver com contextos religiosos e entra em conflito com diversas legislações, inclusive aqui no Brasil. A poligamia implica em casamentos simultâneos, mas não entre todos os membros, tendo um indivíduo central que se casa mais de uma vez.

A poligamia pode ser dividida em poliginia, quando um homem se casa com diferentes mulheres e poliandria, quando uma mulher se casa com diferentes homens. Em ambas as situações, as relações não são das mulheres entre si, mas sim delas com seu marido. E nem são dos homens entre si, mas deles com sua esposa. A poligamia tende a ser associada a religião mulçumana e a alguns grupos de mórmons. No Brasil, a bigamia (dois casamentos concuminantes) é proibida em legislação. O Código Penal conceitua, no artigo 235, que contrair casamento, já sendo casado, configura crime, com pena de reclusão de dois a seis anos. E quem, mesmo sendo solteiro, se casa com alguém que já é casado, também está passível de sofrer a mesma pena.

Classificações arbitrárias:

Apesar dessas conceituações de poligamia, é importante constatar que, através de uma visão eurocêntrica, androcêntrica e cristã, diversas relações que não tinham a ver com os dogmas e valores dos colonizadores, foram classificadas arbitrariamente como poligamia. É importante estar alerta sobre como nossas análises podem ser enviesadas e influenciadas pelo eurocentrismo racista da academia e pelas reverberações da colonialidade. E por nossa proposta ser anticolonial, é importante trazer esses apontamentos.

Em África, Oyèrónkẹ Oyěwùmí, no livro “A invenção da mulher”, fala de como as relações múltiplas do povo Yorùbá foram classificadas de forma arbitrária, uma vez que eram baseadas em outros princípios e contraídas em rituais distintos. O diferente foi categorizado como “poligamia”, ainda que não tivesse a ver com a ideia de propriedade privada e casamento dos colonizadores, distanciando-se assim da “monogamia cristã”, que era o certo, o abençoado por Deus. E a partir dessa categorização, os catequizadores passaram a trabalhar para o fim dessas relações múltiplas. Em seu livro, Oyèrónkẹ relata uma carta jesuítica em que o padre fala como as relações entre amos e escravos se tornava melhor com a colonização, enquanto a “poligamia” era considerada abominável aos olhos de Deus, devendo ser erradicada. Nessa perspectiva, relações múltiplas são mais graves que a escravidão. Essa é a lógica colonial cristã.

Aqui nas terras que passaram a ser chamadas de Brasil, esse processo não foi diferente. O pesquisador Guilherme Fellipe fala de como as relações, sejam múltiplas ou não, foram classificadas arbitrariamente segundo a visão dos catequizadores. Mesmo as relações que envolviam duas pessoas foram perseguidas, por não seguirem a lógica contratual e vitalícia, que as relações monogâmicas cristãs devem seguir. Assim como em África, as relações geridas por rituais próprios dos povos originários foram perseguidas até serem em sua maioria erradicadas, tudo em nome desse projeto de catequização cristã. Nesses territórios, a monogamia e toda sua ligação com a propriedade privada é uma imposição colonial.

Questionar o porquê dessas classificações arbitrárias nos ajuda a entender muito de como se davam as relações dos povos originários antes do marco colonial, bem como descolonizar nossa visão sobre essas relações. Por que seguimos reproduzindo essas classificações? Perpetuá-las contribui para um olhar exotificado e muitas vezes racista dessas relações. É importante que possamos ler e ouvir esses povos sobre suas histórias, seus rituais, suas relações.

Poliamor, poligamia e hipocrisia:

O imaginário no ocidente associa a poligamia à hárens e determinadas religiões/culturas. Por seu caráter de casamentos múltiplos, a poligamia é muitas vezes usada como sinônimo de não-monogamia. Essa poligamia tem a ver com a propriedade privada e conserva características cisheterocentradas e cisheteronormativas, sendo um braço da estrutura monogâmica. Por conta disso, pessoas não-mono costumam procurar se afastar desse termo e não o incluir no guarda-chuva da não-monogamia. Porém é interessante observar e questionar alguns porquês que levam determinados grupos como poliamoristas, a desejarem se afastar da ideia de poligamia.

A escritora Brigitte Vasallo constata em seu livro “Pensamiento monógamo, terror poliamor”, como de norte a sul, na Europa e nas Américas, é fácil encontrar em grupos sobre poliamor diversas explicações contundentes de como poligamia não é poliamor. Para Vasallo, essa preocupação mostra duas coisas: a primeira é o racismo e a islamofobia por parte de muitas dessas pessoas. A segunda é que, no fim, ambos modelos apresentam tantas semelhanças que se cria a necessidade de se distinguir. Vasallo também fala da suposta “igualdade de gênero”, usada como símbolo máximo de diferenciação entre poliamor e poligamia. Apesar de se usar desse símbolo, sabemos que em diversos contextos as relações poliamorosas que não tem um viés político, reproduzem os mesmos constituintes básicos da monogamia e da poligamia. Conservando suas características nuclear, individualista, cisheterocentrada e cisheteronormativa, hierarquizada e competitiva. Em muitos casos, o poliamor se torna uma “monogamia com mais pessoas”.

Podemos observar que nessas situações que falamos, o trabalho doméstico ainda é atribuído às mulheres, reforçando estereótipos e papéis de gênero. As parentalidades seguem a mesma lógica hegemônica. Muitas famílias poliamorosas reivindicam a possibilidade de estabelecer casamentos múltiplos, que é literalmente a etimonologia de poligamia. Essas famílias se preocupam em higienizar a imagem do poliamor, reivindicando um lugar de seriedade, de regras e acordos. Para elas, é preciso reafirmar que poliamor não se trata de “putaria”, o que nos soa totalmente conservador.

Nesse sentido, o que esse poliamor se diferencia da poligamia que conserva essas mesmas características? O que as relações que mantêm as bases das estruturas monogâmicas têm de negação dessa estrutura? Afinal, o “não”, de não-monogamia, é sobre essa negação. Esses modelos relacionais são uma superação da monogamia ou a manutenção da mesma? Qual o sentido de se preocupar com os estigmas que o imaginário ocidental traz sobre a poligamia, ao mesmo tempo que se reproduz muito da sua lógica? Por isso a importância de disputar esses conceitos. Sobre alertar que a obsessão por quantidade tira o foco das dinâmicas relacionais. Sobre como relações ditas não-mono podem seguir perpetuando as opressões da estrutura monogâmica. Sobre como construir outras possibilidades a partir de um projeto de Não-monogamia Política.

Vasallo nos alerta sobre os perigos do que ela chama de “poliamor neoliberal”. Ela fala de como as relações ditas não-monogâmicas são cooptadas por uma lógica individualista e consumista e como isso nos coloca ainda mais isolados, em núcleos, tal qual a estrutura monogâmica. A Não-monogamia Política é a proposta de uma construção de identidade política e de um projeto de vida revolucionário. Projeto esse que é coletivo e emancipatório. É preciso romper totalmente com a lógica colonial por trás da estrutura monogâmica, seja na poligamia, seja no poliamor “neoliberal” ou nas relações abertas e afins.

Por ser também anticapitalista, a Não-monogamia Política busca a abolição tanto da família nuclear quanto da instituição do casamento. Uma grande questão é: deveríamos reivindicar as possibilidades de casamentos múltiplos? Essa questão, que entra na teoria e na prática, deixamos para outro texto. O importante é manter o foco em como romper, dia a dia, com essa estrutura coercitiva e criar novas possibilidades de construção das relações. Reflorestando nossos imaginários e construindo esses afetos de forma artesanal, como nos lembra poeticamente a pesquisadora Geni Nunez.

Referências:

“Pensamiento monógamo, terror poliamoroso” — Brigitte Vasallo;

“Cultura e ética na formação familiar: poligamia e sua repressão no Ocidente” — Ricardo Oliveira Rotondano;

“Poligamia e Bigamia” — Bruno Santos Ludovico e demais;

Brigitte Vasallo, escritora y activista LGBTI: «El poliamor neoliberal nos está convirtiendo en individuos aislados que vamos cada uno a su bola» (eldesconcierto.cl)

Texto por Camila Freitas, Nana Miranda, Newton Jr e Simone Bispo.

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