Disputa de ConceitosTextos

Relacionamento aberto, não-monogamia e disputa de conceitos

Definições e disputa de conceitos sobre um termo genérico e suas aplicações

Existe uma constante disputa de conceitos pelo termo guarda-chuva da não-monogamia. Inclusive o questionamento de se os modelos relacionais abarcados pelo termo genérico “relacionamento aberto” são ou não são não-monogamia. Temos debatido justamente essas disputas de conceito e a importância delas para uma Não-monogamia Política. Mas, o que é relacionamento aberto? Qual a abertura nesse modelo relacional? E por que para alguns ele não é não-monogamia?

Atualmente relacionamento aberto é um termo genérico que é dado para alguns modelos relacionais como namoro aberto e casamento aberto. Essa abertura costuma ser para envolvimento sexual, sendo, em muitos casos, um acordo do casal o não envolvimento emocional. Essa ideia de abertura sexual tem muito a ver com o período das revoluções sexuais do fim do século XX. Nesse período houve muitos questionamentos a respeito dos valores tradicionais que regiam os casamentos e também dos papéis de gênero. O swing, prática relacional que envolve troca de casais, também ganhou força nesse período.

Originalmente, casamento aberto era usado para se referir a um modelo que fugisse aos valores tradicionais, rompendo com as noções rígidas em relação a amizades, a um dos cônjuges sair sozinho, etc. O termo ganhou notoriedade internacional a partir do livro “Open Marriage: A New Life Style for Couples”, do casal O’Neill, lançado em 1972. Apesar de no livro, os autores escreverem sobre essa abertura sexual, não era foco deles falar de uma “não-monogamia”. Mais tarde em 1977 os autores escrevem outro livro intitulado “The Marriage Premise” onde defenderam a fidelidade sexual em um capítulo com esse nome. Apesar disso, o trabalho ajudou a popularizar tanto a ideia de casamento aberto quanto de outros relacionamentos abertos.

Os relacionamentos abertos são um desdobramento da monogamia. Assim como no swing, os relacionamentos abertos costumam envolver menos exposição pública e militância política. A mídia tem um papel fundamental na popularização desse termo. É possível encontrar matérias em diversos portais de notícia sobre casais, inclusive famosos, que são adeptos de relacionamento aberto. Outro termo que tem ganhado força nos EUA é monogamish, que foi traduzido como “monogamia aberta” e compartilha as mesmas noções dos relacionamentos abertos, com abertura sexual dentro dos acordos do casal, mas conservando a ideia de exclusividade afetiva.

Os relacionamentos abertos costumam ter algumas características semelhantes entre si, apesar das várias possibilidades de acordo entre os casais. Uma dessas características é a configuração nuclear e hierárquica, onde o núcleo principal é o casal “original”. Esse casal-núcleo é a relação principal, sendo as outras relações secundárias e por isso, recebendo menos prioridade, dedicação e atenção. A relação principal frequentemente tem o poder de vetar outras relações secundárias por estar numa posição hierárquica superior. Como já dito, outra característica é essa abertura para experiências sexuais casuais ou duradouras. Em contraponto a isso, geralmente o envolvimento afetivo é barrado pelos acordos desses casais.

Essas características têm a ver com a manutenção de uma sensação de segurança por parte desse casal principal. Manter essa distância e tentar legislar sobre o afetivo do outro procura garantir que nenhum dos dois do casal principal seja abandonado. Sabemos que nenhum acordo, seja verbal ou não verbal, impede a paixão de acontecer. O acordo de exclusividade afetiva é tão simbólico na monogamia quanto nos relacionamentos abertos. E sendo o acordo de exclusividade sexual também simbólico, como já visto em textos anteriores, não tendo os efeitos práticos esperados, qual a diferença dos relacionamentos abertos para a monogamia? Nesse sentido, o termo “monogamia aberta” soa mais honesto.

Relacionamentos abertos, seja namoro, seja casamento, são não-monogamia? A resposta para essa pergunta depende do interlocutor. Não nos cabe aqui policiar o termo guarda-chuva não-monogamia. O que podemos afirmar é: relacionamentos abertos não são orientados por uma Não-monogamia Política. O projeto de Não-monogamia Política envolve o rompimento com a estrutura monogâmica e seus constituintes base, como as hierarquias e o casal-núcleo. Apesar de para muitos os relacionamentos abertos servirem de porta de entradas para o pensamento contra-hegemônico da não-monogamia, é importante marcar que é totalmente contraditório afirmar ser orientado por uma Não-monogamia Política e manter um modelo de relacionamento que conserva a estrutura monogâmica.

Os processos individuais são atravessados por diversas questões pessoais. O acolhimento é essencial e por isso espaços de troca como grupos em redes sociais ajudam bastante nesse aspecto. Por ser um projeto coletivo, focamos também nas possibilidades de como lidar com as inseguranças, os medos, os traumas. Apesar disso, nosso convite é por um projeto político e revolucionário. A estrutura monogâmica e seus constituintes base perpetuam opressão e violências. A escritora Brigitte Vasallo nos lembra de como a não-monogamia pode ser cooptada por uma lógica individualista, ao falar do que ela chama de poliamor neoliberal.

O poder se desdobra e a estrutura monogâmica se adapta, tal qual se adaptou ao incluir o amor romântico nos seus constituintes. Para um projeto emancipatório é imprescindível que, assim como Geni Núñez nos traz, nossa autonomia seja direito inalienável. Para desterritorializar e descolonizar os afetos, precisamos romper com toda essa lógica colonial de dominação, controle e posse. É por isso que nós, no NM em Foco, disputamos esses conceitos, como as noções de monogamia, poligamia e relacionamentos abertos. Para que possamos apresentar novas possibilidades para o imaginário popular e também apresentar uma saída a lógica monogâmica através de um pensamento revolucionário, que é a Não-monogamia Política.

Referências:

“Amar é verbo, não pronome possessivo: uma etnografia das relações não-monogâmicas no sul do Brasil”. — Dardo Lorenzo Bornia Junior

“Eu, tu, ilus: poliamor e não-monogamias consensuais”. — Maria Silva e Silvério

Brigitte Vasallo, escritora y activista LGBTI: «El poliamor neoliberal nos está convirtiendo en individuos aislados que vamos cada uno a su bola» (eldesconcierto.cl)

Geni Núñez no Instagram: “Hipersexualização de pessoas não monogâmicas Uma das objeções que escuto de pessoas monogâmicas é: “mas eu só tenho vontade de ficar com 1…”

Texto por Camila Freitas, Nana Miranda, Newton Jr.

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